terça-feira, janeiro 24, 2006

AS ÁGUAS VÃO ROLAR



Daqui a outubro, muitas águas correrão à margem.


Deixaram sangrar. Sangraram.
Não entenderam fábulas de ovos e serpentes.
Eram cobras criadas do mesmo serpentário.
Somos apenas pasto, nesta cadeia alimentar.



Parece existir uma certa condução deliberada para bipolarizar o debate, quando vivemos um momento no qual sabemos que não podemos acreditar em qualquer dos lados., ambos ‘encalacrados’ em verdades de práticas escabrosas

Desprezam-se candidaturas como as de Heloísa Helena - ainda não posta; ou a de Roberto Freire, que nem aparece na consulta ibope.

Não se ouvem as esquerdas do PT, muito menos o que diz o PSTU. A imprensa podia reservar melhores espaços a opcionais. Ping-pong cansa.

Quem está mal pago na lambança toda é o povo, logo ele, que paga a lambança.

Esperar autofagia entre os dos executivos - Federal, estaduais - e dos legislativos, é uma ingenuidade sem tamanho.

Se eles se locupletam e disso vivem, o que esperar? Que tucanos peçam o impedimento de Lula e petistas o de Serra ou Aécio ou Alckmin?

O aterrador é a perspectiva de convivermos com isso por mais um ano, mais um mandato, talvez outros e outros.

É o modelo republicano que faliu ou somos nós, os homens e mulheres, que não temos jeito?

sábado, julho 09, 2005

Do meu anjinho-da-guarda



Estava a refletir sobre mim mesma, aqui, em cima do meu lepitope que levo a todos os lugares. Me penalizava por tudo. Me martirizava. Foi quando meu anjinho-da-guarda chegou aos meus ouvidos, insistente:
- Veja o momento brasileiro, o momento do mundo. Sua cidade, como está?
Ele parecia querer uma resposta não para mim, mas para o momento que vivemos, todos vivemos. Uma resposta para a contemporaneidade.
E me segredou uma pergunta:
- Você sabe aquele seu amigo barbicha com cara de suicida da Al-Qaeda, mas que é do PT?
E começou a dissertar.
Eles são a chave para o entendimento de suas questões. São radicais. Fanatizados. Têm diferença porque um é partido político outro é organização terrorista de fato. Mas levam a Marx.
Ele via a universalização do capitalismo. A concentração do capital. A degenerescência na ordem instituída. Via a falta de escrúpulos da sociedade, uma dor latente que nem dói mais. O crime. As organizações criminosas. Da guerra. Da droga. Do dinheiro. No mundo. No Brasil e aqui em Pipa.
Por isso, fala-se na crise do capitalismo. Na crise mundial diante do terrorismo. Na crise do capitalismo visto de uma maneira instaurada em Pindorama. Mais especificamente, no governo de Pindorama.
Um partido de bandeira vermelha. Uma estrela. Sonhos. Uma sociedade construída e em curso. Uma história carregada nos ombros. Uma vivência no país de gerson e jeffersons e um locuplete-se geral instalado na burocracia.
Com Lula lá, o G-8 se instala na Escócia, enquanto bombas põem o mundo em pânico agora em Londres.
O que quer Bim Laden? Qual o motivo da guerra de Bim Laden? Soberania dos Estados Islâmicos?
A causa da crise chama-se dinheiro.
Os impérios sobrevivem de colonizações. Os colonizados de hoje o são por um tal de Big Brother Orwellano. Aqueles cada vez mais concentrados em riqueza.
Daí à nova escravidão. O Card.

domingo, abril 10, 2005

Único adeus



“aguardo a carícia das palavras
que trocamos ao fim do dia”. Ângela Marques


Já faz tanto tempo. Nem sei se lembro. Sei que as palavras voltam e não mais me atormentam. Enlevam, apesar de últimas. E também não consigo esquecer aquele último olhar.
Você partia para sempre. Para não mais voltar. E sabíamos disso.
Guardei aquele adeus como quem aguarda um amanhã que não virá. Um amanhã ideal. Feito só para você e eu.
Naquele adeus, a certeza de que eu não mais amaria a ninguém como amei até àquela tarde.
No porto, o último aceno. O lenço branco do adeus a secar todas as lágrimas do meu rosto deformado em soluços.
A distância, para nós, conduzia a um destino em paralelas. Você tomaria a estrada em busca de sua vida, eu tomaria rumos que fariam de mim o desassossego de todo dia.
E aí, fiz de mim infernos. Fiz-me delírios e entreguei-me loucamente a qualquer paixão.
Foram contundentes aquelas últimas palavras. Foram doces. Aquelas eram palavras de adeus e eu disso sabia.
Você foi meu último porto: o meu único adeus.

Neuza Margarida Nunes
Natal/Brasil, 10 de abril de 2005

quarta-feira, março 23, 2005

Tempo de bis?



Para Carmelo

De todos os meus amores, um se mantém, sem fotos: só lembrança.
Recordações de entregas devolutas, volutas de cubanos esperando a chama de outras abordagens, inéditas, sussurradas, marcadas pela surpresa imposta pela libido; sugeridas e feitas, sem palavras a dizer assim.
Louco amor sem compromisso ou posse.
Santo amor santo de homem de deus sem batina, sem ordem ou desordem: só desejo e gozo recíprocos, pároco de Thaiti e noviça, em transe; frêmito.
Aquele jornal de tarde de poesia acendeu-me noites de juventude rebelde, desgarrada de igrejas.
Naveguei bares de saudade; deitei camas levadas pelas traças úmidas de tanto amor.
Frei confessor confessado: ficaste como parede de ruína que se mantém – a mais rígida, a mais forte; permanente num tempo que insistentemente se vai e esvai-se em mim, que não esqueço e emparedo.
Tomamos rumos distintos. Nossos destinos não nos quiseram em tempos de provação. Reencontrei-me na escrita que deixaste branda como alô sem eco.
Alô que reverbera em mim como a pedir tempo de bis.

Neuza Margarida Nunes
Pipa, 21 de Março de 2005, deitando sobre mim um jornal que me trouxe prazeres tidos como mortos.

Depois da enxurrada

Fernanda Tavares

Ora a luz ora a treva sem que avise-se. Márcia Maia

Mais um dia de águas de março.
A água da chuva escorre pela rua como se lavasse a cidade, levando impurezas e pecados.
Pecados em mim incrustados sem culpa ou remorso: fiz da vida o que bem quis e por escolha. Talvez por escola: em quantas Marilyn fiz-me espelho? Morri no desastre que levou Leila?
Ficaram os sutiãs queimados, os seios soltos, hoje caídos e a não mais despertar o desejo dos homens.
Ficaram posturas que sedimentaram-se e mostraram um ser mulher capaz. Especialmente capaz da ousadia de ser sem sonhos. Estes fizeram-se práticas cotidianas, doces, amargas, mas práticas sedimentadas em vida.
Hoje, não temo o vôo.
Minhas filhas, largo-as ao mundo sem medo ou remorso. Sei, sobreviverão sem a condição do corpo; sem marcas de entregas involuntárias.
A chuva que lava a alma da cidade leva a lama que não restou em meus escombros. Recolho de mim o passado medroso do futuro e me faço Amélia em fantasia para rir de um tempo de submissão ida: meus pecados, quero-os todos para mim.
Essa chuva? Ela passa como passaram os dias da lavagem.
Em mim, apenas ficou o cheiro da alfazema dos lençóis e a boca entreaberta para os amores que me farão nova como a velha calçada, agora limpa e pura, depois da enxurrada.

Neuza Margarida Nunes
Pipa, 21 de Março de 2005

sábado, março 19, 2005

Molhada para o amor



Vontade de mudar meu mundo, ser diferente. Me experimentar em outro corpo.
Ana Paula Cadengue



Apesar de todos os bares, a noite não me bastou.
Nem a bebida, o fumo, as companhias, os homens. Não que estivesse em TPM. Não.
Cansada de mim mesma, queria-me outra. Nova. Um novo corpo em mim. Uma nova alma.
Queria uma noite nova. Talvez uma cama nova. Um novo homem.
Em mim, os dias têm passado cansados. As horas são as mesmas. A novidade? No brejo da cruz.
Queria escrever versos como minhas amigas. Queria mudar meu próprio mundo, atônita, em desespero? Queria explodir-me em bombas; experimentar gosto novo, noutra boca.
Já em casa, no meu quarto, desejei a chuva de São José. Queria despertar sentindo cheiro de terra molhada. Queria-me molhada para esse novo amor.

Neuza Margarida Nunes
Pipa, 19 de Março de 2005, depois do conserto do lepitope.

domingo, fevereiro 06, 2005

Centeio e sonho

O mundo seria outro se cada um conhecesse o seu espelho. Se a ele mirasse sem as máscaras das manhãs, lavado o rosto de sonhos banhados em ego.

As relações decerto seriam outras.

A imagem não esconderia falsidades nem hipocrisias. Não acataria as pedras atiradas aos pecados santos de quem pior nunca foi; não se deixaria dourar, pobre alma de latão, ali, diante de si.

O lado não virtual do espelho não se pergunta: que fiz de mim ou o que fui? O que fiz, o que deixei? Não se indaga. O essencial não importa, mas as mentiras refletidas.

Seu lado não virtual afoga-se em maquiagem perfeita de si mesmo.

Nunca duvida: sou o cara. Presa ao suporte, sua imagem ri da cena. Abomina, mas aceita. Como fugir?

Nem as marcas dos anos modificam o cotidiano encardido que ficou. Um dia a mais; a menos, nada modifica o transmutar das horas.

O eu virtual tem limites. O que está diante de si, talvez nunca: é a máscara do império quase sempre estampada; é o senhor de todos os atos humanos e sublimes a mirar-se diante do que nada vale. Porque o que vale, o que é e será, é ele: o senhor das horas absolutas e sem pecados, puro, imaculado, a desdenhar da realidade em volta. Dos amigos, das situações, até dos perigos que não chega a ver diante de si.

Os homens de caras lavadas diante dos espelhos são deuses. Perfeitos, não enxergam. Só os mortais da vizinhança não sabem vê-los assim: esses não prestam.

Os homens diante do espelho navegam na ambigüidade de si mesmos. Não se sabem joio: sonham-se trigo.

Jamais amassarão o pão do centeio consumido. Consomem. Consomem-se.

E ainda se acham melhores do que os que derramam o suor gestor de sua vã egolatria.



Neuza Margarida Nunes

Barro Vermelho, Natal/RN, 1 de fevereiro de 2005

Analisando o gás da maldade

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Futuros expostos

Futuros expostos
Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Clarice Lispector

Contrariada, sem ânimo para bater pernas; sair, conversar com amigos.
Janeiro está indo e, com ele, parece, um tempo de mim.
Se não pude ser entendida, fiz de mim instrumento de muitos quereres, desejos adormecidos, latentes, prontos para despertar.
Sou assim, sempre fui assim: inconformada com disposições imutáveis. Sou transitória e tenho ciência desta condição. Sou povo insatisfeito: faço greve e piquete, bato panelas; chuto a barraca.
Maquiagem, aceito para minhas rugas; jamais para situações de vivências impostas.
Sou viva; sou morta. Não calo diante do que não aceito. Reajo: não quero saber se agrado.
Amanhã, estarei melhor. Batem a angústia, a tristeza; baixo astral diante de incompreensões, injustiças, mas segue à risca a lida em busca de um novo dia.
No jardim, rego a roseira que me trará o perfume orvalhado da umidade em mim feita longa estiagem. Não sou nascente de ressentimentos; sou, sim, a que prepara a semente para tornar-se semente de muitas sementes. Cultivo dádivas e pela vida me dei. Não me importei para os meus olhos levados; minha carne surrada; minha alma torturada. Lutei contra todos os vilipêndios: se fui derrotada em parte, houve casos onde ganhei.
Abro meu peito à ternura: ouço cânticos, vejo futuros expostos diante de mim.
Sei onde me achar; sei onde levo meus pés.
Ali, lavá-los-ei das feridas e seguirei adiante: é meu o caminho que eu mesma inventei.

Neuza Margarida Nunes
31 de janeiro de 2005
Feliz, porque sei fazer-me feliz.