segunda-feira, janeiro 31, 2005

Futuros expostos

Futuros expostos
Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos... Clarice Lispector

Contrariada, sem ânimo para bater pernas; sair, conversar com amigos.
Janeiro está indo e, com ele, parece, um tempo de mim.
Se não pude ser entendida, fiz de mim instrumento de muitos quereres, desejos adormecidos, latentes, prontos para despertar.
Sou assim, sempre fui assim: inconformada com disposições imutáveis. Sou transitória e tenho ciência desta condição. Sou povo insatisfeito: faço greve e piquete, bato panelas; chuto a barraca.
Maquiagem, aceito para minhas rugas; jamais para situações de vivências impostas.
Sou viva; sou morta. Não calo diante do que não aceito. Reajo: não quero saber se agrado.
Amanhã, estarei melhor. Batem a angústia, a tristeza; baixo astral diante de incompreensões, injustiças, mas segue à risca a lida em busca de um novo dia.
No jardim, rego a roseira que me trará o perfume orvalhado da umidade em mim feita longa estiagem. Não sou nascente de ressentimentos; sou, sim, a que prepara a semente para tornar-se semente de muitas sementes. Cultivo dádivas e pela vida me dei. Não me importei para os meus olhos levados; minha carne surrada; minha alma torturada. Lutei contra todos os vilipêndios: se fui derrotada em parte, houve casos onde ganhei.
Abro meu peito à ternura: ouço cânticos, vejo futuros expostos diante de mim.
Sei onde me achar; sei onde levo meus pés.
Ali, lavá-los-ei das feridas e seguirei adiante: é meu o caminho que eu mesma inventei.

Neuza Margarida Nunes
31 de janeiro de 2005
Feliz, porque sei fazer-me feliz.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Perfume de máscaras de outrora

Perfume de máscaras de outrora

“No carnaval viveremos o eternamente.” Simone Sodré


Abro portas de guarda-roupas antigos e encontro baús de serpentinas adormecidas. Num deles, o casco vazio de uma rodoro do começo dos anos sessenta. Nem sei porque o guardo. A memória falha e, no entanto, pressinto referências vivas. A fantasia de colombina dos meus treze anos está meio carcomida pelo tempo de traças vorazes dos tempos que vieram depois, quando somei desencantos.
A bailarina dos meus dezenove... A sapatilha branca, as rendas de verde suave, a decorar as ilusões da idade. Sonhei palcos glamorosos e me tornei celebridade em dias de fantasia. Meu Clark Gable, nunca voltou.
Ali, no fundo, a gueixa dos vinte e três me leva a salões cariocas, quando o desvario me levou a tendas de mandarins.
Nipônica sem pudor, a exibir seios fartos de irresponsabilidades num trânsito que se fez estático diante do mar de Copacabana, fiz-me sereia sem vestes para encantar Netuno.
O carnaval sempre esteve bem dentro de mim.
Pelas ladeiras de Olinda, atrás dos trios de Salvador, jamais me permiti retiros, isolamentos em praias tranqüilas: fui sempre afoita diante dos primeiros clarins. O Zé Pereira sempre me tomou a mão oferecida, para me atirar à folia e só largá-la na quarta ingrata de saudades eternas.
Tantos carnavais nesse baú de saudades! Máscaras, chapéus, luvas, paetês. Quanta fantasia acumulei!
Sempre com a festa acabada, voltava eu a vestir velhas ilusões diárias.
Foi sempre assim: as interpretações em vida não me deixaram ser quem eu fui, só personagem de mim quando só, sobre travesseiros de avaliações jamais profanadas.
No reino de momo o perfume antigo da lança me perpassa; atravessa meu peito despido de fantasias hipócritas, esquentando meu sangue a renovar-se em pulmões aliciados: no carnaval, vivemos eternamente.

Neuza Margarida Nunes
27 de janeiro de 2005
Segurando junto ao rosto um lenço antigo, carregado de muitas lembranças

quarta-feira, janeiro 26, 2005

A debandada dos miasmas

A debandada dos miasmas

Tomo a pulso o direito a mim outrora negado. Meire Gomes

Levastes de mim apenas dias perdidos. Esses, esqueci-os em gavetas emperradas por ferrugem sedimentada. Coloquei-os em fornalhas de infernos consumidos. Não os quero nem por lembrança.
Refeita, respiro ares que não me trazem saudades. Sou nova em novas vestes. Sou outra.
Liberta por decisão minha e unânime de mim, sou acalanto suave sussurrado entre brumas fecundadas. Aspiro auroras a toda hora e as tenho comigo a todo instante. Estou eu. Em mim me fiz por condução da carne.
Entre o ser e o permanecer, busquei a distância e o amanhecer de mim. Fiz-me eu: aprendi que montanhas se desfazem ao vento.
Rezei por ti e pedi por mim. Lavei promessas em caldos santos.
Entre dedos fechados, fiz do meu pulso impulso: a liberdade nunca chega se não chamada.
Adentro rios inexplorados. Descubro horizontes onde a vista se perdeu. Ajo ao sabor de interiores meus: sou fado; sou tango a não mais soluçar travas de cotidianos perdidos: fiz-me eu.
O que outrora me foi negado, nem preciso como lembrança: as asas da memória pulam muros e me encontram em tempos repletos de rebeldia, quando o ser ousava serventias para si, ainda semente em busca de água.
Estou em mim, de volta. Dou voltas aceleradas aos passados que me fizeram morta e não os vejo: naufragaram na superfície ácida que o instante dissolveu.
A mim, hoje, tudo é possível. Visto-me artesã e moldo sandálias andarilhas. Jogo serpentinas ao mar e confetes ao reencontro comigo mesma. Fantasio futuros próximos e distantes; busco tintas amarelas para os dias saciados de azuis.
Sim: digiro fantasias.
Agora, como eu, não me acompanham planos de alforria: os miasmas em volta partiram em pânico.

Neuza Margarida Nunes
26 de Janeiro de 2005
Contemplando crustáceos à beira do mangue

À margem, como epígrafe

À margem, como epígrafe

Além da névoa e da noite, o que existe? Marize Castro

Aqui, sem saber-me eu.
Decifrada em sementes, antegozo o fruto maduro ante a iminência da queda. Aqui recorro aos meus delírios. Repouso em minhas fugas.
Apago luzes, bato a porta, saio. Acendo faróis sem rumo. “Além da névoa e da noite, o que existe?” Indagava a poesia deixada na cama, como se a exigir resposta quando da volta.
Serpenteio a cidade em busca do que fazer. Entro num shopping; aprecio vitrines que refletem desejos. O cartaz do cinema me atrai para uma fila de ingressos. Encontro uma amiga de outrora e tomamos rumo da praça de alimentação. Pedimos cerveja e logo estamos a gargalhar lembranças de tempos irrequietos, quando o futuro era vaga referência abstrata e distante.
Procuramos saber razões das marcas deixadas em nossas faces. São tantos os labirintos que mentimos a nós mesmas, escondendo passados de vivências desprezadas.
É forte o desejo da dança. Partimos, então, em direção ao abismo. Seremos serenos em busca de orvalhos. Seremos madrugadas.
Como chove fininho e o tempo esfriou, ela se deixa levar ao primeiro pedido.
Fico só em meus devaneios interpretes de canções. Descubro que a alma é imensa e grande é a sensibilidade de quem se deixa seduzir por palavras grafadas em sentimentos.
Isso fica.
Fico eu também, porém a descartar segundas intenções. Os sons hoje são mais agradáveis que as estripulias da noite. Prefiro pensar. Estar comigo mesma para tentar desvendar estradas percorridas em velocidades alucinadas.
Que fiz eu da vida? Sobrou-me a lágrima sobre a mesa tinta do vinho consumido.
Raiou o dia e eu não me dei conta de mim. Lembro a leitura deixada na cama e o verso que me ficou como epígrafe: todo rio tem sua margem.
Talvez seja eu, a margem não alcançada da noite.

Neuza Margarida Nunes
Pedra do Rosário, Natal/RN, 26 de Janeiro de 2005
Voltando à poesia de Marize Castro

terça-feira, janeiro 25, 2005

Hora do encontro

Hora do encontro

“Só no tempo há espaço para mim". Clarice Lispector

Fui efêmera em todos os meus amores. Fui volúvel. Só a mim, amei de verdade.
E fui sincera.
Aos homens, jamais menti: não foi preciso. Todos me chegaram como quem doma em picadeiro; como quem ergue pirâmides em desertos de gelo.
Mentir, talvez tenha mentido a mim mesma, quando aceitei o ouro da gargantilha esculpida em esmeraldas; quando me fiz seduzida em troca de um cruzeiro no meu Mediterrâneo de prazeres.
Quão bobos são os homens! Julgam-se poderosos, invencíveis, contagiantes.
Ousam pensar na manhã seguinte; no negócio fechado; no planejamento perfeito para conquistas definitivas de uma única noite.
Não lêem em entrelinhas; não sabem das horas; não percebem brisas vindas do mar.
Jamais saberão os segredos das lingeries soltas pelo corpo, folgadas enquanto pedem carícias; a maciez da alfazema nos lençóis.
A minha alma de mulher fez-me pedra envolta a aço de sólida carapaça: a tudo me permiti, enquanto só aos prazeres me entreguei. Prazeres do vinho, absinto de perigos tentaculares.
Vesti-me de mistérios, descalcei-me de vergonhas. Não me fiz lágrima ou ferida exposta. Não usei máscaras de pudores profanados.
Em mim, tudo permiti. Nada me reteve. Nunca soube olhar pra trás.
Senhor de mim, só os segundos me devoravam, me consumiam, e eu não dava bola para horas.
Quando acordei, já era noite. E era cidade, tão grande e habitada, que só nesse instante me encontrei: cada segundo foi um naco de mim.
Neles, fiz-me festa e encenei gêneros diversos. Fiz-me truta sem ser sereia.
Cada segundo foi senhor de mim.

Neuza Margarida Nunes
Centro de Artesanato, Praia dos Artistas, Natal/RN, 25 de Janeiro de 2005
Feliz com meu novo chapéu de fibras de sisal

Um pouco de noite

Um pouco de noite

Da noite resta um pedaço. Márcia Maia

Ainda é madrugada na sacada salobra sobre curvas do Potengi.
A lua, ali, dá-me adeus, prometendo voltar inteira quando, noitinha, o sol se for. Inda me resta um pedaço pouco de uma noite que não se foi inteira. Levo-me aos espelhos, onde me fecho em pedaços, tetradona de virtualidades somadas em sonhos que fiz de mim.
Neles, sei esconder meus pecados, meus descaminhos.
Os anos passaram-se e ainda sou a mesma, só eles mudaram. Os frascos de essências me acompanharam; mantêm a aparência polida de outrora, embora tragam novas fragrâncias.
No cristal das rosas, mantenho vivo o galho seco de anos de espera, depois de pétalas caídas; folhas lavadas por esperas de todo dia.
Depois que partistes, um adeus sem resposta postou-se à porta do meu quarto frio. Eu sabia que seria para sempre.
Levastes contigo a minha sede de entregas felizes; deixastes o travo que em mim fez-se silêncios, solidão.
Resta-me, no entanto, um pouco de noite. E num pouco de noite, ainda é possível sonhar.

Neuza Margarida Nunes
Barro Vermelho, Natal/RN, 25 de Janeiro de 2005
Ainda saudosa de ti

A cal que me guardas

A cal que me guardas

Meus pensamentos já não cabem nas teias da razão. Antoniel Campos

Armarei ciladas na noite de hoje. É pré-carnaval e na Ribeira uma banda toca. Ensaia, como se fora para aprisionar almas; como se fora para propor infernos.
Preparo meu corpo para uma noite suja de intenções.
Não me comparo a nada: despi de qualquer razão os meus atos. Já não sou afeto: sou carne.
Ardem em mim, consentimentos de ontem, quando fui menina e muitas vezes presa; alimento de luxúrias que não ficaram em mim. Nem em quem de mim fez pasto.
Hoje sou quem tarrafeio. Conheço os cardumes em busca de alimento; faço pescarias com anzóis de encantos mágicos perfumados.
Se hão de censurar-me, censuro-os eu na liberdade que proponho.
Lagos não me satisfazem. Apesar da imensidade, oceanos também repousam em limites: quero a ousadia da água que corre; a ousadia do obstáculo proposto.
Vencê-lo-ei sempre, sou rio: barragens não aplacam a minha fúria. Por isso previnem-se em comportas.
Estou ladeira abaixo e trilhos não sigo: tenho o peso dos comboios de minha idade. Nada me freia nem me conduz. Nem mais sou condutora de mim: sou deriva; Titanic a buscar icebergs.
Se estou louca, não sei. Não me importa a razão.
Não me quero fardo nem arrumo trouxas para viagens frugais: a roupa que visto basta-me como mortalha.
Não quero fantasia. Só me proponho ser coveira num carnaval de entregas: enquanto.
Do pó da cal que me guardas, quero apenas o sal que uso de tua carne.

Neuza Margarida Nunes
Barro Vermelho, Natal/RN, 25 de Janeiro de 2005
Com medo de mim mesma

segunda-feira, janeiro 24, 2005

Tal vez mañana

Quiero sentirte muy cerca, mirarme en tus ojos, verte junto a mí.
Piensa que tal vez mañana yo estaré lejos, muy lejos de ti.
Consuelo Velázquez

Amanheci triste com a notícia de falecimento de Consuelo Velásquez.
Quantas vezes, em minha infância, não fui acordada, minha mãe, na cozinha, preparando o café da manhã, cantando Bésame mucho?
A tristeza daquela melodia, a melancolia de suas notas musicais, penetravam em minha alma, deixavam-me melancólica, mesmo não sabendo bem o que as palavras diziam.
Era como se fora uma canção feminina, só dela, de minha mãe. Uma música de outro tempo, cantada com ternura e cheia de saudade.
Consuelo passou pela vida quase anonimamente, como a maioria das mulheres. Enquanto esteve conosco, seus versos e sua melodia espalharam-se pelo mundo, venceram gerações cativadas pela sensibilidade musical e de alma que encerravam. Mas, quem conhecia Consuelo Velásquez? Quem sabia sua história de vida? Onde vivia. Como vivia.
Uma anônima fora das rodas bem conhecedoras da música mexicana; uma celebridade universal traduzida em vários idiomas; cantada em dezenas de países.
Uma mulher dedicada ao estudo e execução de música clássica, como poucas do seu tempo, devota da família, a cuidar de marido e filhos.
Um nome que será mais conhecido após a morte do que nos tempos em que sua canção consagrada tornou-se marca de latinidade, por ela e com ela difundida com tanta e rara sensibilidade.
Uma mulher longe das luzes que buscam celebridades; célebre no seu espaço anonimamente conquistado pela pureza de versos que encheram de lágrimas um tempo que não a procurou conhecer.

Neuza Margarida Nunes
Barra de Tabatinga, 24 de Janeiro de 2005
Solfejando uma antiga canção que me leva à infância

domingo, janeiro 23, 2005

Sem Projeções de mim

Sem projeções de mim

“Deixe pois que se guardem as lembranças.” Márcia Maia

Hoje vou ver amigos, amigas, novos e dos tempos que a memória cativa, insiste em preservar. Vou fazer visitas, beber um pouco, armazenar confissões sobre novos segredos.
Não vou querer conversas sobre cabelo, marido, cozinha. Evitarei notícias de jornais. Assuntos de trabalho, esses também não os quero para hoje. Dispensar trocadilhos, afastar-me dos piadistas, vou.
Vou querer cultivar mistérios.
Vou procurar encanto onde nunca vi; beleza, em tudo que antes não percebi; sensibilidade no duro coração dos profissionais repetitivos, mecânicos. Vou buscar umidade em leitos mortos; cintilância, em cavernas de almas remoídas; tempero na mesmice dos chatos e inoportunos.
E não vou procurar lembranças. Pelo menos, hoje.
Vou para alto-mar, pescar futuros; arrumar malas para nova travessia.
Quero cometas ao anoitecer; uma vela que me colha ventos cariciosos; uma âncora que não me deixe desgarrada, à deriva.
Vou em busca de um dia que não sei, sem os sonhos de ontem. Sem sequer desejos. Sem memória ou projeções de mim.

Neuza Margarida Nunes
Barra de Tabatinga, 22 de janeiro de 2005
Mal dormida, depois de noite de axé music dos amigos vizinhos.

Universos? Melhor não fechá-los

Universos? Melhor não fechá-los
A verdade sempre é sem graça.
Por isso é que os políticos se elegem...
Clotilde


No meu tempo de estudante universitária, passei por uma cadeira que se chamava Metodologia da Ciência. A maioria da turma achava-a chata e nela não via muita utilidade. Eu não via assim. Gostava mesmo da disciplina.
Já havia até me esquecido destes bons tempos de academia, quando me deparei com o raciocínio que escolhi epígrafe para este texto de poucos leitores e escrito para mim mesma, feito página de meu diário.
E fui estudar a assertiva: a verdade sempre é sem graça. Essa palavra “sempre” é uma desgraça, dá idéia de infinitude, de coisa eterna, e até se há eternidade no universo, hoje há quem duvide. Ora, se até a eternidade hoje é coisa relativa, por que usar essa palavra fechada em si? Lembro um exemplo de um dos meus professores, que de tudo duvidava. Era um mestre, ele, Pastorino Torres, professor de Latim, e talvez por isso, sobre tudo discorria. Lembro uma vez que ele tocou nesse assunto “sempre” e citou um exemplo: o pão sempre é feito de trigo. E ele dizia: para que a frase fique melhor, exclua a palavra maldita. Diga, o pão é feito de trigo. Pronto, ninguém vai aparecer para dizer que você está errado/a, já que pão pode ser feito com outros materiais. E citou exemplos e exemplos acerca do uso do “nunca” e do “sempre”, palavras para ele perigosas. Dessa água, jamais beberei. O céu é sempre azul. Assertivas que podem cair por terra a qualquer hora, ou mudar de coloração de acordo com as estações.
“Por isso é que os políticos se elegem”. Ora, políticos não se elegem porque a verdade é sem graça. Eles se elegem porque recebem votos da população. Se esses votos são comprados e isso torna a política menos interessante, é outro departamento. Mas será que todo (outra palavra fatal) político compra voto? Mesmo que não compre, ou que compre, será obrigatoriamente sem graça o seu mandato? Será que jamais haverá um político eleito sem a compra de voto e que fará do seu mandato um exemplo de criatividade e consonância com tudo o que o seu eleitor desejou? Difícil pode ser, mas impossível (mais uma palavra fatal e fechada), não.
Assim, amigo/a leitor/a, estimulo o desuso dessas palavras fatais, aconselhando “quase sempre”, “quase nunca”, “talvez impossível”, e por aí vai.
Fechar universos, quase sempre é perigoso para o jogo da verdade e da lógica. Quase sempre.

Barra de Tabatinga, 21 de Janeiro de 2005
Ainda sem saber qual a estória verdadeira de um tal Deuzinho.

Cotidiano

Sonhos acorrentados a uma alma liberta. Liberta?
Neuza Margarida Nunes

Amanheci sem o canto do galo, sem a poesia de Márcia. Talvez o cansaço do domingo de sol. Talvez uma Lemúria de sonhos submersos em férias de verão de mar e azuis.
A roupa que preparo para o dia? Uma canga, um chapéu, meu biquíni escarlate, um lenço de seda amarelo, a sandália de borracha comprada no hiper da esquina, conhecida bodega de dona Rita. Ela que, viúva, há anos não vê o mar e tem os filhos criados e doutores, mas que não se deixa, domingo a domingo, sair do balcão de todas as suas horas. Ela, que nem mais precisar precisa, ali, qual escrava de si mesma, acorrentada a fantasmas de outrora, quando se julgava feliz. Será ela menos feliz que eu, em meus devaneios de conquistas e poder? Para ela, bastam as lembranças de Antônio, o sussurro do fantasma em seus ouvidos. A ela, os mesmos afazeres satisfazem, e sexo é coisa que não a preocupa. Ainda é nova, dona Rita, velha é a viuvez que fê-la deixar a máquina de costura e assumir o comércio do jovem Antônio, morto a bala, em assalto, quando ainda tinha filhos a criar. O assunto, porém, não cabe a essas horas, quando cultivo azuis e espero o adiantar do relógio, descasco o abacaxi para o suco e preparo a goma da tapioca. Mais tarde, estarei num porto tranqüilo, num mar de calmarias aparentes, a dourar minha alma para o delírio da noite. Os sonhos libertos de minha alma trarão a mim a felicidade que existe, resignada e nobre, inamovível, no pequeno e gasto balcão que é toda a vida de dona Rita?
Melhores os dias em que o galo canta, e a poesia chega de manhã, com acordes de bentivis.
Natal, 17 de janeiro de 2005


Cardápio de desejos em domingo de veraneio
Para o meu amigo Oswaldo Ribeiro

Domingo de janeiro em festa na costa do Nordeste. Gente por todos os lugares, colorindo praias, engarrafando estradas com seus automóveis em vai-e-vem. Eu? Eu, esperando a mim mesma ou esperando de mim uma decisão. Que fazer? Talvez a releitura de um livro antigo; talvez o mar, mais tarde um filme em cinema de shopping; praça de alimentação.
Dia para comer e beber, jogar a dieta fora e ganhar os quilinhos que não quero, a forçar-me torturas nos dias que virão. Como vou resistir às delícias doces expostas nas vitrines, nos cardápios, nas páginas dos meus desejos?
Hoje, fujo da cerveja que me delicia. Busco alternativas em outros copos e gostos, em outras doses, mas continuo me lançando a mar aberto. Como. Bebo a me perder de mim. Sei que já não mais sou musa de desejos, modelo escultural, provocativo, a seduzir olhos de desejos fúteis. Isso também já não me interessa, contabilizo rugas, são extensas as listas de compras de cosméticos, cremes a me embranquecer as faces em noites de sonhos de juventude.
Mas hoje é domingo e tudo que quero é sair por aí, ver gente, reverenciar o sol, deixar-me banhar pela imensidão de horizontes salgados, catar conchas, recolher sargaços, conversar bobagens a beira-mar.
Redinha Velha, 16 de Janeiro de 2005

Não sei para onde vou
Sinto-me como se estivesse naquela navezinha que pousou em Titã, buscando respostas para minha gênese.
Hoje, faço da memória curva em 160 graus e tomo o caminho de volta. Será que Huygens, em 1655, ao vislumbrar pela primeira vez o satélite de Saturno, quando voar o homem ainda nem podia, imaginaria que em 2005 o homem colocaria ali equipamentos de estudos para melhor sondá-lo?
Hoje, a sonda está lá, como monumento dos habitantes do planeta Terra, a buscar respostas para o começo, senão do universo, do nosso minúsculo, e insignificante para o cosmos, sistema solar. Eu, que vim da célula e hoje sou milhões delas, quero voltar a minha gênese para saber quem sou. Filha de uma explosão me sei, porque filha do sexo e do gozo. Quantos caminhos percorri para me fazer em superfície titânica? Quanta distância galguei em sonhos até obter respostas mínimas acerca de mim? Talvez, melhor seria mudar de rota, pegar tangentes, conduzir lemes para espirais. Que história tenho a contar ou deixar? Tudo passará, como o sol que cruza horizontes em movimento que não é seu. Sinto-me como esse movimento ilusório, sem saber-me senhora do meu destino, sabendo-me cavalgadura em rédeas de semi-deuses. Busco o sol e me satisfaz a lua, com sua luz branda e suave a acariciar o mar sereno. Busco satélites e os homens chegam-se a mim planetários, ignorantes de que sou super nova ou buraco negro a degluti-los em fúria farta de lascívia, não sendo Hera, mas Afrodite.
Não me quero senhora, não me permito senhores. Apenas não vou contra forças do universo, reconhecendo imposições de gravitações que se fazem leis. Sempre haverá uma pergunta diante de mim, um horizonte que se afasta do meu galeão pirata sem rota ou timão. Mesmo diante dessa consciência, procuro saber, busco, perquiro, quero voltar e ir além, mesmo sabendo que não sei para onde vou.
Neuza Margarida Nunes
Natal/RN, 15 de Janeiro de 2005