quinta-feira, janeiro 27, 2005

Perfume de máscaras de outrora

Perfume de máscaras de outrora

“No carnaval viveremos o eternamente.” Simone Sodré


Abro portas de guarda-roupas antigos e encontro baús de serpentinas adormecidas. Num deles, o casco vazio de uma rodoro do começo dos anos sessenta. Nem sei porque o guardo. A memória falha e, no entanto, pressinto referências vivas. A fantasia de colombina dos meus treze anos está meio carcomida pelo tempo de traças vorazes dos tempos que vieram depois, quando somei desencantos.
A bailarina dos meus dezenove... A sapatilha branca, as rendas de verde suave, a decorar as ilusões da idade. Sonhei palcos glamorosos e me tornei celebridade em dias de fantasia. Meu Clark Gable, nunca voltou.
Ali, no fundo, a gueixa dos vinte e três me leva a salões cariocas, quando o desvario me levou a tendas de mandarins.
Nipônica sem pudor, a exibir seios fartos de irresponsabilidades num trânsito que se fez estático diante do mar de Copacabana, fiz-me sereia sem vestes para encantar Netuno.
O carnaval sempre esteve bem dentro de mim.
Pelas ladeiras de Olinda, atrás dos trios de Salvador, jamais me permiti retiros, isolamentos em praias tranqüilas: fui sempre afoita diante dos primeiros clarins. O Zé Pereira sempre me tomou a mão oferecida, para me atirar à folia e só largá-la na quarta ingrata de saudades eternas.
Tantos carnavais nesse baú de saudades! Máscaras, chapéus, luvas, paetês. Quanta fantasia acumulei!
Sempre com a festa acabada, voltava eu a vestir velhas ilusões diárias.
Foi sempre assim: as interpretações em vida não me deixaram ser quem eu fui, só personagem de mim quando só, sobre travesseiros de avaliações jamais profanadas.
No reino de momo o perfume antigo da lança me perpassa; atravessa meu peito despido de fantasias hipócritas, esquentando meu sangue a renovar-se em pulmões aliciados: no carnaval, vivemos eternamente.

Neuza Margarida Nunes
27 de janeiro de 2005
Segurando junto ao rosto um lenço antigo, carregado de muitas lembranças