quarta-feira, março 23, 2005

Tempo de bis?



Para Carmelo

De todos os meus amores, um se mantém, sem fotos: só lembrança.
Recordações de entregas devolutas, volutas de cubanos esperando a chama de outras abordagens, inéditas, sussurradas, marcadas pela surpresa imposta pela libido; sugeridas e feitas, sem palavras a dizer assim.
Louco amor sem compromisso ou posse.
Santo amor santo de homem de deus sem batina, sem ordem ou desordem: só desejo e gozo recíprocos, pároco de Thaiti e noviça, em transe; frêmito.
Aquele jornal de tarde de poesia acendeu-me noites de juventude rebelde, desgarrada de igrejas.
Naveguei bares de saudade; deitei camas levadas pelas traças úmidas de tanto amor.
Frei confessor confessado: ficaste como parede de ruína que se mantém – a mais rígida, a mais forte; permanente num tempo que insistentemente se vai e esvai-se em mim, que não esqueço e emparedo.
Tomamos rumos distintos. Nossos destinos não nos quiseram em tempos de provação. Reencontrei-me na escrita que deixaste branda como alô sem eco.
Alô que reverbera em mim como a pedir tempo de bis.

Neuza Margarida Nunes
Pipa, 21 de Março de 2005, deitando sobre mim um jornal que me trouxe prazeres tidos como mortos.

Depois da enxurrada

Fernanda Tavares

Ora a luz ora a treva sem que avise-se. Márcia Maia

Mais um dia de águas de março.
A água da chuva escorre pela rua como se lavasse a cidade, levando impurezas e pecados.
Pecados em mim incrustados sem culpa ou remorso: fiz da vida o que bem quis e por escolha. Talvez por escola: em quantas Marilyn fiz-me espelho? Morri no desastre que levou Leila?
Ficaram os sutiãs queimados, os seios soltos, hoje caídos e a não mais despertar o desejo dos homens.
Ficaram posturas que sedimentaram-se e mostraram um ser mulher capaz. Especialmente capaz da ousadia de ser sem sonhos. Estes fizeram-se práticas cotidianas, doces, amargas, mas práticas sedimentadas em vida.
Hoje, não temo o vôo.
Minhas filhas, largo-as ao mundo sem medo ou remorso. Sei, sobreviverão sem a condição do corpo; sem marcas de entregas involuntárias.
A chuva que lava a alma da cidade leva a lama que não restou em meus escombros. Recolho de mim o passado medroso do futuro e me faço Amélia em fantasia para rir de um tempo de submissão ida: meus pecados, quero-os todos para mim.
Essa chuva? Ela passa como passaram os dias da lavagem.
Em mim, apenas ficou o cheiro da alfazema dos lençóis e a boca entreaberta para os amores que me farão nova como a velha calçada, agora limpa e pura, depois da enxurrada.

Neuza Margarida Nunes
Pipa, 21 de Março de 2005

sábado, março 19, 2005

Molhada para o amor



Vontade de mudar meu mundo, ser diferente. Me experimentar em outro corpo.
Ana Paula Cadengue



Apesar de todos os bares, a noite não me bastou.
Nem a bebida, o fumo, as companhias, os homens. Não que estivesse em TPM. Não.
Cansada de mim mesma, queria-me outra. Nova. Um novo corpo em mim. Uma nova alma.
Queria uma noite nova. Talvez uma cama nova. Um novo homem.
Em mim, os dias têm passado cansados. As horas são as mesmas. A novidade? No brejo da cruz.
Queria escrever versos como minhas amigas. Queria mudar meu próprio mundo, atônita, em desespero? Queria explodir-me em bombas; experimentar gosto novo, noutra boca.
Já em casa, no meu quarto, desejei a chuva de São José. Queria despertar sentindo cheiro de terra molhada. Queria-me molhada para esse novo amor.

Neuza Margarida Nunes
Pipa, 19 de Março de 2005, depois do conserto do lepitope.